Baptismo Orfeónico

(in revista do OUP, Dezembro de 1962)

Quando o Orfeão Universitário do Porto reiniciou a sua actividade no ano de 1943 existia na Universidade um movimento a favor da renovação da praxe académica, principalmente na Faculdade de Ciências, por onde, ao tempo, passavam obrigatoriamente os estudantes de todas as Faculdades, que as exigências dos programas obrigavam a frequentar pelo menos um ano nos chamados preparatórios, antes de se poderem orientar para os estudos a que os chamava a sua vocação.

Constituindo então o O.U.P. o único organismo universitário, cujo âmbito abrangia alunos de todas as faculdades, encontrava-se, portanto, numa posição de primacial importância para orientar e coordenar esses impulsos de renovação de velhas tradições.
Logo de início, o Orfeão se manifestou abertamente contra determinadas praxes que pretendiam ridicularizar os caloiros e embora alheias às tradições da Universidade portuense alguns alunos da Faculdade de Ciências pretendiam introduzir entre nós.
Adoptando um ponto de partida diferente, ou seja, o de considerar o caloiro como um estudante a quem falta apenas a experiência da vida académica e que portanto necessita dos conselhos amigos dos mais antigos, o O.U.P. contribuiu eficazmente para repelir a introdução no meio portuense de tradições alheias, por certo muito respeitáveis mas que nos são totalmente estranhas.

Este conceito justificou a criação do "baptismo" a que todos os caloiros do Orfeão se submetiam alegremente e que em regra se efectuava no decurso da primeira excursão em que tomava parte o orfeonista. Considerava-se - e suponho que ainda se considera- que o facto de frequentar os ensaios durante um ano lectivo, de participar nos espectáculos no Porto e de acompanhar o Orfeão numa digressão pela província ou pelo estrangeiro conferia ao móvel orfeonista suficiente experiência para poder participar activamente nas decisões relativas ao O.U.P..

A cerimónia do "baptismo" foi-se codificando a pouco e pouco. Em regra encarregava-se de baptizar um dos orfeonistas mais antigos e mais conhecidos.
O caloiro, acompanhado pelos respectivos padrinhos, aproximava-se, ajoelhava e era então baptizado deitando-se-lhe algumas gotas de água na cabeça. O "baptizador" dirigia então algumas palavras em latim macarrónico que lhe ditava a sua fantasia, pois não havia fórmula fixa. No final um dos caloiros recém-baptizados devia fazer um discurso de agradecimento.

Nesses tempos, já um poucos distantes, era costume no final registar a data e o local de baptismo nas costas do cartão de orfeonista, assinando o "registo" o veterano que presidia à cerimónia. Note-se a este propósito que de início o Orfeão usava os cartões de identidade que encontrava já impressos e que ostentavam a legenda "Orfeão Académico da Universidade do Porto" e a um canto as antigas armas da cidade do Porto rodeadas pelas fitas das cores das quatro Faculdades então existentes. Só mais tarde, uma das direcções em que fui secretário mandou imprimir cartão de identidade para os Orfeonistas com a legenda "Orfeão Universitário do Porto" e as armas da Universidade.

Nunca, porém, na tradição orfeónica o baptismo representou uma cerimónia restrictiva e o caloiro gozou sempre de todos os direitos inerentes à sua qualidade de orfeonista e recordo-me de alguns rapazes do meu tempo que, pelos seus méritos, foram encarregados pelas respectivas direcções de várias tarefas importantes antes de serem "baptizados".
Entre os aspectos da vida do O.U.P. a praxe académica constitui uma faceta curiosa, pelo carácter original de camaradagem e boa vontade que os orfeonistas lhe souberam imprimir, fazendo do baptismo não uma "libertação", mas uma "consagração" e reconhecimento de que o caloiro se mostrava digno orfeonista e bom camarada.

Talvez valesse a pena codificar um dia as praxes do Orfeão Universitário, de modo que mantivessse o carácter original e a integridade de expressão das manifestações mais típicas e curiosas da actividade orfeónica.

Cidrais Rodrigues
(Antigo Orfeonista)