Traje Académico

(in revista do OUP, Março de 1967)

Tradição e Progresso
a capa e batina dos nossos dias

"Verdes, amadurecem
Os corações;
Velhas, rejuvenescem
As ilusões;
E na mesma fogueira onde se aquecem,
Comungam sentimentos e paixões "

Miguel Torga

Organismo académico com mais de meio século de existência, tendo evoluído, naturalmente, em muitos dos seus múltiplos aspectos, mantém o Orfeão Universitário do Porto, entre as características que o vêm definido, ao longo dos tempos, a defesa do uso do tradicional traje académico português, a característica capa e batina.

Motivo de rasgados elogios e, por vezes, até de certo espanto, a persistência e rigidez com que, no OUP, se defende e exige o uso da capa e batina, tem sido objecto de acaloradas e vivas discussões. Desde problemas de ordem estética, a questões de comodidade e até de higiene, a tudo vem resistindo, o que alguns classificam de anacrónico e impróprio de pessoas "evoluídas" e "inteligentes".

Debaixo da capa e batina, o espírito dos moços, a alma dos que sonham, estabelece laços de amizade frutuosa e duradoira, que a todos une.
No perpassar romântico da capa e batina, sente-se uma vivação igualitária que varre, para bem longe, as diferenças de fortuna - total desigualdade que, fora da vida universitária, cai sobre as almas juvenis, como neve sobre os botões a desabrochar, cortando-os e esterilizando-os.

Igualmente vestidos entram na vida académica com o mesmo direito, a mesma alegria, o mesmo sentimento de posse, esquecendo a eterna voracidade do homo hominis lupo. A mocidade é uma para todos. O mesmo pano, o mesmo corte, dá, às almas dos estudantes, a mesma franqueza de procedimento que só a inteligência torna mais nobre e graciosa.
Porque assim se tem entendido e principalmente sentido, é que essa tradição chegou até nós. Terá chegado o momento em que a juventude, particularmente a universitária, se deixará absorver completamente pelo sucesso e bem estar material? Virão os Orfeonistas que nos seguirem a deixar de nos entender, na saudade, que já sentimos, da vida académica, da capa e batina e do nosso Orfeão?

Acreditamos que não. E se na dúvida, por vezes, nos assusta ou entristece, ela será fruto e sinal da mocidade que nos vai fugindo. A mesma preocupação terá ocupado também os Orfeonistas que nos precederam e, no entanto, o Orfeão continuou e chegou até nós.
Tradição imutável, essa de se manter rigidamente fiel ao uso da capa e batina, sob cujo signo nasceu e debaixo da qual tem vivido, crescido e prestigiado o Orfeão Universitário do Porto.

E esta posição, continuamente mantida pelos que, durante as diversas gerações de estudantes, tem sentido sobre si o encargo de a transmitir, é fruto de convicção que todos temos de que nela reside a perenidade de uma obra que nos enche de orgulho e que, confiamos, será continuada e engrandecida.

São estas, caloiros orfeonistas de 1966, as palavras que vos deixa o colega e Amigo

"TIÃO"